Histórias
Milhares de quilômetros percorridos, mas um caminho melhor pela frente: assistência transnacional ao aborto na América Latina
Roseane Santos se identifica como muitas coisas: mãe, amiga, trabalhadora, estudante, cuidadora e, agora, ativista. A história de Roseane reflete a de inúmeras outras pessoas em todo o mundo que não conseguem ter acesso a abortos seguros e legais, mas a dela tem uma reviravolta importante - ao se conectar com organizações e prestadores de serviços de assistência reprodutiva, ela conseguiu recuperar o controle de sua situação e criar uma vida em que agora é capaz de apoiar outras brasileiras que desejam fazer o mesmo.
Roseane nasceu no Brasil, no estado do Amazonas, no norte do país. Ela acabou se mudando para o sul, para São Paulo, em busca de melhores oportunidades de trabalho. Nos anos seguintes à sua mudança, Roseane se casou e teve um filho, hoje com 7 anos de idade. Alguns anos após o nascimento do filho, Roseane se divorciou e, pouco tempo depois, ficou desempregada. Infelizmente, esses dois eventos que alteraram sua vida também coincidiram com o fato de Roseane descobrir que estava grávida novamente. Ao avaliar a situação, Roseane decidiu que a melhor opção para ela seria procurar um serviço de aborto.
O aborto é criminalizado no Brasil, exceto em casos de estupro, anencefalia ou risco de vida para a mãe. Como as circunstâncias de Roseane não se enquadravam em nenhuma das três exceções, ela procurou alternativas - mas as opções locais eram muito incertas e potencialmente arriscadas. Depois de algumas semanas, Roseane sentiu que havia esgotado todas as opções disponíveis no Brasil - ela tomou um chá de ervas recomendado por uma amiga, foi enganada por vendedores de medicamentos on-line e, quando nenhum deles funcionou, ela só sentiu dores piores e mais incerteza. Quando Roseane voltou ao médico para confirmar que ainda estava grávida, a equipe médica a maltratou por ter procurado atendimento para aborto ilegal.
Frustrada e desesperada, Roseane recorreu às mídias sociais para tentar encontrar alguma última oportunidade de atendimento. Finalmente, em uma descoberta aliviadora em sua jornada para ter acesso ao atendimento, Roseane encontrou Projeto Vivas - um parceiro do Fòs Feminista que apoia mulheres que precisam ter acesso ao aborto legal sob as atuais exceções no Brasil e no exterior, fornecendo informações, referências e apoio financeiro e logístico para a viagem. O Projeto Vivas então a conectou com FUSA, A mulher foi atendida por um parceiro do Fòs Feminista na Argentina, onde fez um aborto seguro e legal.

Devido às suas experiências anteriores com golpistas on-line que vendiam medicamentos ineficazes, Roseane estava cética quando entrou em contato com o Projeto Vivas pela primeira vez. Felizmente, um membro da equipe de apoio do outro lado da Internet a ajudou a se sentir tranquila e confiante - essa pessoa era Rebeca Mendes, outra mulher brasileira que havia passado por uma situação quase idêntica alguns anos antes, quando teve que viajar para a Colômbia para fazer um aborto seguro e legal depois de ter o acesso ao atendimento negado por um tribunal brasileiro.
Roseane ficou surpresa e animada com a forma como foi recebida na FUSA em Buenos Aires, especialmente em comparação com os maus-tratos que havia sofrido em um hospital no Brasil. A equipe atenciosa ouviu atentamente as perguntas e preocupações de Roseane, e tudo aconteceu exatamente como Rebeca havia lhe dito nas conversas que antecederam o procedimento. Ela saiu com um DIU, sentindo um profundo alívio e uma sensação de segurança. Em suas próprias palavras, Roseane descreveu sua jornada para receber atendimento ao aborto seguro como uma experiência que mudou sua vida, na qual ela aprendeu sobre empatia, o poder da comunidade e a importância de garantir que as mulheres possam decidir com segurança o que é melhor para elas de acordo com seus próprios princípios.
Inspirada por sua experiência na rede de assistência reprodutiva, Roseane tornou-se voluntária no Projeto Vivas e agora é funcionária da organização. Ela passa seu tempo cuidando do filho, estudando espanhol e fazendo faculdade à noite para se formar em direito.
“Quando as pessoas falam sobre aborto, geralmente pensam em alguém sendo promíscuo ou se livrando de um fardo. Mas é apenas uma questão de responsabilidade”, disse Roseane. “Criar um filho é difícil, especialmente quando não se pode contar com uma boa saúde pública ou quando não se tem acesso a creches - as pessoas precisam entender isso.”
Como mulher negra, Roseane está cada vez mais ciente de que suas colegas são mais vulneráveis a abortos inseguros e têm mais dificuldade de acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva no Brasil. É por isso que Roseane está convencida de que a interseccionalidade é essencial no trabalho que ela realiza com o Projeto Vivas e no trabalho de inúmeras outras organizações de justiça reprodutiva em toda a rede de atendimento na América Latina. Sem considerar a justiça racial nessa e em outras lutas, os negros continuarão vulneráveis, inclusive seu filho.
O debate atual sobre a descriminalização do aborto até a 12ª semana está em andamento na Suprema Corte do Brasil traz a Roseane, e a todo o movimento feminista, uma imensa esperança para o futuro. Roseane se considera sortuda por ter encontrado apoio do Projeto Vivas, mas há milhares de mulheres e meninas que não têm acesso à Internet ou não podem viajar e não conseguem recuperar o controle de suas decisões. A crença e a missão do Projeto Vivas e de todos os outros parceiros do Fòs Feminista no Brasil é que todas as mulheres, meninas e pessoas de gênero diverso têm o direito de ter acesso a abortos seguros e legais - e a história de Roseane ilustra a importância da liberdade de tomar decisões sobre o próprio corpo, porque gravidezes indesejadas e forçadas não devem impedir os planos de ninguém.